Sentado em sua poltrona insignificantemente inclinada para trás, o passageiro encara sua primeira experiência de voo em um avião comercial. Pressionando fortemente o encosto para os braços, um ruído é emitido, um resmungo em declínio à água ofertada pela aeromoça. Em alguns minutos toda aquela carcaça de metal se erguerá e tomará os céus, arremetendo-se sobre sabe-se-lá-o-quê pode haver acima das nuvens. Respirando ruidosamente, olha pela janela numa tentativa fracassada de parecer menos nervoso do que aparenta. Precisa ficar tranquilo, afinal, o que poderia dar errado numa viagem tão comum?

Terror a Bordo, trata-se do mais recente livro organizado por Stephen King e seu amigo, Bev Vincent a chegar no Brasil pela editora Suma, selo da Companhia de Letras. Contendo 17 histórias selecionadas pela dupla, o livro de pouco mais de 200 páginas promete proporcionar aos leitores amantes de histórias de terror e suspense todo o sortilégio de calafrios e medos relacionados às alturas.

Antes que os leitores se enganem, faz-se importante explicar que a maioria das histórias presentes na antologia não foi escrita especificamente para compô-la (com exceção dos contos de Joe Hill e do próprio Stephen King). Em Terror a Bordo, encontraremos contos desenvolvidos por Arthur Conan Doyle, Ambrose Bierce e David J. Schow (O Massacre da Serra Elétrica), por exemplo.

Parte dos contos transita por uma série de gêneros, da ficção científica à fantasia, do terror ao suspense, fato que não permite que a própria antologia crie uma identidade mais firme e clara ao público. Não obstante, o próprio terror do título (que no original na verdade é Flight or Fright) não fica muito bem a bordo. Isso ocorre devido a parte das histórias não girarem em torno do medo de voar ou dos perigos relacionados ao objeto: o avião.

Por outro lado, o padrão de histórias curtas permite ao livro, como um todo, adquirir caráter essencialmente fluido; as páginas se desenrolam com facilidade, tornando a experiência de leitura agradável, distrativa, mas não memorável.

Como estamos falando sobre um livro de contos, abaixo vou compartilhar quatro das histórias que mais me agradaram durante a leitura.

“A Carga”, de E. Michael Lewis: nessa história que abre a antologia, o leitor se verá prestes a embarcar em um Lockheed C-141ª Starlifter, saindo de Jonestown, no Panamá, para retorno aos Estados Unidos da América, em Dover, Delaware. Estamos em novembro de 1978 e a missão vem com o pretexto de ser uma evacuação médica em massa de expatriados. Misteriosamente, mais de mil pessoas, entre adultos e crianças tomaram veneno, um tipo de suicídio em massa provavelmente envolvendo algum culto. O avião leva como carga dezenas de caixões, além do sargento responsável pela missão, um garoto e uma enfermeira. Os problemas a bordo começam quando sons vindos de onde os caixões estão chegam até eles. O que poderia ser?

“Pesadelo a vinte mil pés”, de Richard Matheson: talvez a melhor história da antologia organizada por King e Vincent, aqui nós subimos a bordo de um DC-7, junto de nosso amedrontado protagonista, Arthur Jeffrey Wilson. Cruzando o céu, Arthur em breve ficará com os nervos à flor da pele, afinal, junto à asa e à turbina da aeronave uma estranha criatura parece destruir a fuselagem. Chamar a atenção dos demais passageiros ou da comissária o transformará em um louco e não fazer nada poderá derrubar o avião!

Transitando deliciosamente entre o horror e o terror, o conto de Matheson, originalmente lançado em 1961, quando fumar e portar armas em um avião era normal, entrega uma das melhores experiências de leitura envolvendo o medo de voar e o medo do próprio objeto voador.

Cena de “Twilight Zone: the movie” (1983).

“Lúcifer!”, de E. C. Tubb: escrito por um dos mais prolíficos autores de ficção científica da Grã-Bretanha, este conto, premiado na Eurocon de 1972, trata com maestria de um dos maiores problemas de se viajar de avião: após embarcar e estar no ar, você precisa ficar até o final. Imagine que você descubra em plena viagem que o seu avião está fadado a um desastre aéreo e tudo o que você possui em mãos é um dispositivo capaz de voltar 57 segundos no tempo. Como impedir que o pior venha a acontecer?

“O Especialista em turbulência”, de Stephen King: embora nem todos concordem, na minha humilde opinião o conto foi bastante interessante. Como o próprio título já remete, nessa história acompanharemos um protagonista cujo trabalho é lidar com as piores turbulências durante o voo. Trabalhando para uma organização misteriosa que seleciona em quais voos ele deverá embarcar, sua responsabilidade é sempre a mesma: assegurar que a aeronave não sofra um desastre. Um dos pontos mais interessantes no conto é uma provável ligação com a história de O Instituto, o mais recente romance lançado pelo autor, em 2019.

Stephen King gravando o áudiobook de seu conto. Reprodução por Simon & Schuster.

“Vocês estão liberados”, de Joe Hill: no conto de um dos autores mais proeminentes do gênero, o leitor se verá em pleno voo, quando inesperadamente se inicia o conflito bélico entre Estados Unidos e Coréia do Norte. Misseis e aviões cruzam os céus, tornando o céu o pior lugar para os passageiros de um voo comercial. Com uma crítica política evidente, esse é mais um dos contos dignos de nota na antologia.

Terror a Bordo encerra como um livro agradável para se ler após uma leitura mais desgastante. Ainda que não seja a melhor das antologias, a experiência de leitura é válida, principalmente por apresentar aos fãs do gênero outros autores que dificilmente teríamos contato de outra maneira.

** Leitura realizada na edição digital cedida em parceria com a Companhia das Letras.

Terror a Bordo
Stephen King & Bev Vincent
Terro
Suma
2020
Brochura
288

Apertem os cintos para esta antologia de contos turbulentos, com curadoria do mestre do terror e autor best-seller mundial, Stephen King, e do colunista da famosa revista de terror Cemetery Dance, Bev Vincent.

Stephen King odeia voar.
E agora, junto com seu coeditor Bev Vincent, ele está pronto para compartilhar esse medo com você.
Bem-vindos a Terror a bordo, uma antologia sobre tudo que pode dar terrivelmente errado quando se está a 20 mil pés de altura, cortando os céus a 800 km/h, preso em uma caixa de metal com centenas de desconhecidos.
Aqui você vai encontrar todas as maneiras como sua agradável viagem pelos ares pode se transformar em um pesadelo, incluindo algumas formas que você nunca imaginou… mas que vai imaginar da próxima vez em que estiver atravessando a ponte de embarque e entregando sua vida nas mãos de um estranho.
Incluindo histórias inéditas de Joe Hill e Stephen King, além de catorze contos clássicos e um poema de mestres como Richard Matheson, Ray Bradbury, Roald Dahl, Dan Simmons e muitos outros, Terror a bordo é, nas palavras de Stephen King, “perfeito para ler em aviões, principalmente durante aterrissagens turbulentas”.

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Dhiego Morais

Paulistano de nascimento, praiano por consequência. Nerd inveterado, descobriu desde pequeno o conforto dos livros e a habilidade de imergir em seus mundos. De romances a mangás, de literatura fantástica a não ficção, aprendeu com o tempo que basta um cantinho e uma boa história para ser feliz. Fã de Stephen King, de ir ao cinema e comer em um bom restaurante. Não necessariamente nessa ordem.