O hype – aquele burburinho crescente referente a algum livro, série de TV ou filme, que enaltece e eleva as expectativas do público – muitas vezes pode ser insuportável, difícil de calar ou de resistir. Você entra no Instagram e vê os perfis que mais curte comentando ou postando sobre o livro; entra no YouTube e é bombardeado por canais recomendando esse mesmo livro; passeia por sua loja virtual favorita e o livro que mais te chama, até mesmo te incomoda é justamente o livro do momento. Não há promoção que espere, o dedo dispara e pronto: comprado. Mas o que esperar da leitura?

Acredito que inevitavelmente você já tenha se decepcionado com um livro extremamente hypado – e se não se decepcionou, uma hora vai. Acontece, pode ser triste, mas passa. Ser leitor é isso aí. O tombo vem, mas a aclamação também.

“Sempre gostei do Luke. Ele é corajoso e bom, e é o jedi mais forte de todos. Acho que o Luke é a prova de que não importa de onde você venha ou quem seja a sua família; você sempre pode ser incrível se for verdadeiro consigo mesmo.”

Arquivo pessoal – @liemderry_

Vermelho, Branco e Sangue Azul, de Casey McQuiston foi um dos livros do momento em 2019. Chega a ser surpreendente como as pessoas descobriram e se redescobriram nesse livro, comentando sem parar. Agora, se a leitura merece todos os elogios? Não. Na verdade, Vermelho, Branco e Sangue Azul merece muito mais.

Alex Claremont-Diaz é o queridinho da mídia norte-americana. Extremamente carismático, inteligente e bonito, o jovem se sobressai por sua personalidade forte e bom humor. Além disso, Alex é filho da presidente dos Estados Unidos, Ellen Claremont, uma democrata eleita em 2017. Fazendo parte do Trio da Casa Branca, junto de June, sua irmã e Nora, neta do vice-presidente, eles rapidamente se tornaram o assunto principal dos tabloides e principais jornais especializados.

Aspirando um futuro brilhante, Alex deseja se tornar o mais jovem congressista de seu país. A carreira política parece estar nas veias da família, mesmo tendo June seguido para o jornalismo.

Do outro lado do oceano, a autora nos guia até o príncipe de Gales, Henry. Irmão mais novo de Phillip, herdeiro do trono inglês e a quem o mundo adora, ele precisa manter a imagem imaculada da realeza, enquanto suprime seus sonhos e desempenha suas funções reais.

Alex não é o maior dos fãs de Henry. Na verdade, ele vê na figura do príncipe o seu arqui-inimigo. É de conhecimento da equipe de segurança e da primeira-família a raiva insuportável de Alex por Henry. Bem, as coisas acabam convergindo quando a presidenta e sua família são convidados para o casamento real do príncipe Phillip. Um encontro extremamente divertido para o público termina de forma vergonhosa, com Alex e Henry brigando e caindo satisfatoriamente no bolo real.

Ansiosos por reconstruir os laços da imagem da Casa Branca e do Coroa Inglesa decidem-se, entre as equipes da rainha e da presidenta de que o príncipe Henry e Alex deverão fingir para a mídia a sua amizade. Calar os tabloides o mais rápido possível, assim pensam todos.

“Às vezes você só tem que se jogar e torcer para não cair de um penhasco.”

Fonte: Tumblr

A proposta de Vermelho, Branco e Sangue Azul, inicialmente é essa. A partir daqui, o que Casey Mcquiston faz com as palavras e a maneira como desenvolve suas personagens e sua trama, trabalhando questões sociais, relacionamentos, preconceito e política é fora de série. Dotado ainda, de uma narrativa deliciosa, o leitor rapidamente se perde nos desdobramentos do embaraço entre as figuras públicas e carismáticas de Alex e Henry. É tudo tão mágico, tão natural e crível; não é difícil nos sentirmos abraçados enquanto lemos.

É engraçado como Alex tem uma visão unilateral de como Henry é. Para ele, o príncipe é a prova incontestável da má figura pública, da realeza esnobe e indiferente ao povo. Pouco a pouco, isso é desmontado, pois Henry, apesar de mais jovem que seu irmão, tem um desejo de mudanças, de renovação, enquanto luta por um mundo melhor, mais tolerante, principalmente. Por terem de se aproximar, em busca de refazer a imagem da Coroa e da Casa Branca, ambos se tornam mais próximos, trocam contatos, mensagens e se encantam um com o outro.

Quando o ano novo se aproxima (alô, 2020!), o auge dessa improvável amizade ocorre. Henry finalmente beija Alex, nos arredores solitários de uma Casa Branca em festa. O príncipe odeia como Alex não enxerga o que está diante dos seus olhos: eles realmente se gostam.

Casey McQuiston é uma autora que já entrou para o rol das minhas queridinhas. Em cerca de 400 páginas, a autora consegue trabalhar magistralmente temas importantíssimos da juventude contemporânea, tais como: a sexualidade, pois é após o beijo entre príncipe e primeiro-filho que este, Alex, passa a se questionar, ou melhor, busca entender-se como ser humano, tentando entender o seu coração e seus sentimentos – aqui, preciso fazer um adendo, é muito, muito bonito acompanhar o desenrolar, pois Alex é jovem e latino, e tenta, sozinho, se encontrar no mundo, assustado com tudo o que isso pode significar para si, para o seu futuro e para a sua família. Em vários, vários momentos me senti projetado ali, vesti a pele do personagem e revivi diversos dilemas. Então, é reconfortante perceber que não estamos sozinhos.

Vermelho, Branco e Sangue Azul passa longe de um romance simples LGBTQIA+, pois é por meio de uma história cheia de humor e de amor, de questionamentos socioculturais e políticos que a autora transcende o papel e atinge um público plural, extremamente diversificado em idade e extrato social.

Embora Alex seja muito divertido, às vezes inconsequente, mas dotado de tanto amor quanto inteligência, me vi ainda mais projetado na figura de Henry, seja por sua timidez, seu jeito reservado, polido, seja pelos desejos mais profundos de seu coração, por sua vontade de amar e ser amado sem medo, de ser verdadeiramente correspondido, de fazer a diferença onde quer que esteja. Henry não é a só a visão tradicional do príncipe encantado, mas também, e ainda mais, a do amor que nos completa, mesmo quando não sabíamos que precisávamos ser completados.

Em 2020 Ellen Claremont viverá a corrida presidencial pela reeleição nos Estados Unidos. Uma disputa acirrada, com adversários dispostos a tudo para derrubá-la nas pesquisas. O trio da Casa Branca e sua boa imagem são necessários para auxiliá-la nesse desafio. Mas quais consequências surgiriam com o relacionamento aberto entre príncipe e primeiro-filho? Como a presidenta e a Coroa reagiriam? Casey McQuiston trabalha tudo isso e muito mais (relacionamento entre pai e filho, entre irmãos, exposição exacerbada à mídia, limites do poder, amizade, etc.) de forma brilhante.

“Comecei a pensar em mim e em todas as memórias dignas de serem lembradas como os quartos escuros e empoeirados do Palácio de Buckingham. […] Mas a primeira vez em que te vi. No Rio. Eu a levei para os jardins. Eu a coloquei contra as folhas de um carvalho dourado e a declamei para o Waterloo Vase. Não cabia em nenhum outro cômodo […].”

Fonte: Tumblr

Casey McQuiston em Vermelho, Branco e Sangue Azul dá voz ao seu coração, às angústias de uma eleição (2016) que simbolizou uma derrota para a diversidade, para o combate ao preconceito, ao racismo e aos discursos que fomentam a violência e o radicalismo político. Em seus agradecimentos, ao final do livro, a autora deixa claro a sua vontade de que o livro não seja apenas uma realidade paralela bem humorada e utópica, mas que seja, sobretudo, uma faísca de esperança diante de uma realidade difícil.

Terminar esse livro foi mais difícil do que imaginava, afinal, pouco a pouco, página a página me vi desejoso de que a história não acabasse, de que aquelas personagens não se despedissem de mim, de que aquele quentinho no coração, aquela sensação de sentir-se abraçado pela autora não me abandonasse. Raras foram as vezes em que vesti tão profundamente as peles de personagens que tinham tanto de mim. Sinto-me grato em acompanhá-los por uma jornada tão rica, tão significativa. E torço, para que no futuro, eu também tenha a chance de um final feito a dois corações.

Indicado para quem gostou de: Simon vs a Agenda Homo Sapiens e Um Milhão de Finais Felizes

Vermelho, Branco e Sangue Azul Book Cover Vermelho, Branco e Sangue Azul
Casey McQuiston
Romance
Editora Seguinte
2019
392

Quando sua mãe foi eleita presidenta dos Estados Unidos, Alex Claremont-Diaz se tornou o novo queridinho da mídia norte-americana. Bonito, carismático e com personalidade forte, Alex tem tudo para seguir os passos de seus pais e conquistar uma carreira na política, como tanto deseja. Mas quando sua família é convidada para o casamento real do príncipe britânico Philip, Alex tem que encarar o seu primeiro desafio diplomático: lidar com Henry, irmão mais novo de Philip, o príncipe mais adorado do mundo, com quem ele é constantemente comparado ― e que ele não suporta.
O encontro entre os dois sai pior do que o esperado, e no dia seguinte todos os jornais do mundo estampam fotos de Alex e Henry caídos em cima do bolo real, insinuando uma briga séria entre os dois. Para evitar um desastre diplomático, eles passam um fim de semana fingindo ser melhores amigos e não demora para que essa relação evolua para algo que nenhum dos dois poderia imaginar ― e que não tem nenhuma chance de dar certo. Ou tem?

“Vermelho, branco e sangue azul é escandalosamente divertido. É romântico, sexy, espirituoso e emocionante. Amei cada segundo.” ― Taylor Jenkins Reid, autora de Daisy Jones & The Six e Os sete maridos de Evelyn Hugo

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Dhiego Morais

Paulistano de nascimento, praiano por consequência. Nerd inveterado, descobriu desde pequeno o conforto dos livros e a habilidade de imergir em seus mundos. De romances a mangás, de literatura fantástica a não ficção, aprendeu com o tempo que basta um cantinho e uma boa história para ser feliz. Fã de Stephen King, de ir ao cinema e comer em um bom restaurante. Não necessariamente nessa ordem.

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Paulistano de nascimento, praiano por consequência. Nerd inveterado, descobriu desde pequeno o conforto dos livros e a habilidade de imergir em seus mundos. De romances a mangás, de literatura fantástica a não ficção, aprendeu com o tempo que basta um cantinho e uma boa história para ser feliz. Fã de Stephen King, de ir ao cinema e comer em um bom restaurante. Não necessariamente nessa ordem.

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